sexta-feira, 11 de julho de 2008

O Corvo (The Raven)


O Corvo é um dos poemas mais lindos já feito pelo engenho humano. Foi composto por Edgar Allan Poe (Boston, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, 7 de Outubro de 1849) em 1845 e conta a história do amor de um homem que perdeu sua amada para a morte, e por isso ele começa a ler "doutrinas de outro tempo" com o intuito de trazê-la de volta a vida. Porém, recebe uma visita do anjo mensageiro na forma de corvo para fazer com que as esperanças se acabem e ele ver que vida continua... uma bela obra, que em nossa língua se perde um pouco dos significados, mas a beleza se mantém... Um homem jamais vencerá a morte, porém o verdadeiro amor vence!


O Corvo

"Em certo dia, à hora, à hora da meia- noite que apavora

Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
'É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há-de ser isso e nada mais'

Ah, bem me lembro! Bem me lembro!
Era no Glacial Dezembro
Cada brasa do lar sobre o chão reflectia
A sua última agonia
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus chamam Lenora
E que ninguém chamará mais"

Logo, ele conclui que deva ser alguma "...visita amiga e retardada...há-de ser isso e nada mais".

"Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: 'imploro de vós, - ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e mansa
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais'
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite e nada mais."

Nosso triste homem suspira ao ver a escuridão: "...Só tu, palavra única e dileta,/ Lenora, tu, como um suspiro escasso da minha triste boca sais; / E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; / Foi isto apenas, nada mais"

"...Devolvamos a paz ao coração medroso, / Obra do vento e nada mais"

"...Abro a janela, e de repente,

Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um Lord ou uma Lady. E pronto e recto,
Movendo no ar suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais"

"...Diante da ave feia e escura, naquela rígida postura,
Com o gesto severo, - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: 'Ó tu das nocturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Diz os teus nomes senhorais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?'
E o corvo disse:'Nunca mais'.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera,
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome:'Nunca mais'

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: 'Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora'
E o corvo disse: 'Nunca mais'

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exacta! É tão cabida!
'Certamente, digo eu, essa é toda a ciência

Que ele trouxe da convicência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz , tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: 'Nunca mais'"


"...Entender o que quis dizer a ave do medo / Grasnando a frase: 'nunca mais'"

"...Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjecturando fui, tranquilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais."

"Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: 'Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora'.
E o corvo disse: 'Nunca mais'.

'Profeta ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Diz-me: existe um bálsamo no mundo?'
E o corvo disse: 'Nunca mais'.

'Profeta ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,

Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Diz a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!'
E o corvo disse: 'Nunca mais'.

'Profeta ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Cessa, ai, cessa! Clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.'
E o corvo disse: 'Nunca mais'

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!"

Por Edgar: Allan Poe (Tradução de: Machado de Assis)

3 comentários:

Lucas Nietzel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diário de Ana disse...

Encontrei perdido na internet e amei o poema, achei lindo...
Ah agora descobri um dos que te inspiram... rsrs
Que bom que gostou

Bj anjinho

O Equilibrador de Pratos disse...

Assim como acessei o blog do Lucas aí, estou acessando o teu e te convidando a conhecer o nosso: www.oequilibradordepratos.blogspot.com

- O Equilibrador de Pratos -
O que os homens pensam?

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3 amigos (B. Sacamano, Hannibal e Jurandir, pseudônimos, claro) que resolveram fazer um blog tratando de assuntos que abordam o "Universo Homem + Mulher = Relacionamentos". Retrata todos assuntos citados acima, com textos bem escritos, humorados, ácidos, sarcásticos, irônicos e, sinceros ao extremo. Vale dar uma conferida. E que atire a primeira pedra quem não se identificar com algo. E por que o nome "O Equilibrador de Pratos"? Entre no blog e descubra. Será um "soco no rim". No bom sentido, é claro.